A ciência da informação resistirá à Internet ? – reflexões soltas de um aluno de doutorado

outubro 31, 2008

Artigo publicado originalmente no DataGrama Zero, http://www.dgz.org.br/ago07/F_I_com.htm
14.08.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

“As hipóteses são redes: só quem as lança colhe alguma coisa.” (Novalis).

Ao entrar no doutorado, acreditem, a minha tese tinha um objetivo claro e pouco ambicioso: estudar os ambientes colaborativos da Internet.

Nada mais. Ali, o que me encanta e inquieta é o caos controlado do Wikipedia, do Slashdot, da criação coletiva do Linux e de tantas outras comunidades em rede.

Como existir sem um pai, um irmão mais velho ou um chefe poderoso que a todos controla? É possível?

Ao tentar pensar sobre o problema, como um fio que vai puxando vários outros, quase um hipertexto sem fim, precisei subir um degrau: afinal, o que é a Internet, esse espaço mágico que habitamos há 15 anos que tantos nos dá e nos cobra?

Sim, concordo com Pierre Lévy que é o primeiro meio de comunicação do muito para muitos, das salas de Chat, das listas de discussão, dos ambientes colaborativos, agora batizados de redes de relacionamento, que se espalham nesse novo fenômeno batizado de Web 2.0.

Mas como explicar a nova Web 2.0 sem poder dizer exatamente o que foi a Web 1.0? Ou mesmo compreender, através de uma lógica simples ou complexa o surgimento da própria rede na sociedade? Como explicar algo sem começar pelo fio da meada?

Que lógica há por trás da rede que a tudo toma numa velocidade de Fórmula 1? Para, assim, por fim, explicar como os ambientes colaborativos estão se impondo e concluir a minha tese.

E aí surge o termo explosão da informação, ecoando por sobre os diferentes textos da nossa área. A Ciência da Informação surgiu para resolver o problema da explosão da informação do pós-guerra. Vivemos uma nova explosão do hipertexto.

Já entramos na explosão dos ambientes colaborativos.

Já que venho do lado pragmático dos profissionais da informação, percebi uma fenômeno comum ao longo dos meses recentes de contato com alguns clientes e amigos já no mundo Web 2.0: que batizei de “Ponto G”, o ponto de gargalo.

É um determinado momento em que um sistema de informação determinado, começava a ficar tão incontrolável e inútil, que a empresa precisa passar para uma nova etapa disponível, no caso a Web 2.0.

Isso ficou mais claro quando escutei:

“Chegou uma hora que eu não conseguia mais controlar os comentários dos usuários e deixei de lado, liberando qualquer um a postar o que quisesse, seja o que Deus quiser!”, cliente 1.

“Há muitos textos sobrando e tantos, que precisei criar um novo site, no qual o usuário coloca direto sem passar por mim para dar vazão ao processo”, cliente 2.
 

(O mesmo fenômeno, aliás, quando as empresas se sentiram impelidas a ingressar na Internet para divulgar e, depois, vender produtos.)

Então, pensei: hummm, existe um determinado momento chave, no qual determinado sistema implode? E perguntei para Aldo Barreto, meu orientador, tomando um café expresso descafeínado no Rio Sul, se tínhamos algo parecido na literatura.

Prontamente me apresentou dois conceitos importantes, já presentes em textos escritos por ele, para o trabalho, vindo de fontes inusitadas:

Nenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de tamanho e uma conseqüente mudança de escala, passa por isso sem modificar sua forma ou conformação, (Galileu, há mais de 350 anos).

E ainda:

O conhecimento, potencialmente armazenado em estoques de informação, acumula-se exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo colocando-se filtro de entrada para limitar qualitativamente o crescimento destes estoques, a coisa toda tenderá a ruir em pedaços, devido ao seu próprio peso, a menos que se modifique as proporções relativas da estrutura em relação ao seu conteúdo físico, (D’Arcy Thompson,1961).

Uma luz se acendeu.

Existe, então, determinado momento na história das empresas e na sociedade que determinado sistema de informação explode? E, assim sendo, a explosão (e a própria Internet) não seria então uma anomalia, conforme Kuhn, que ocorre de tempos em tempos, mas uma regra, que guia todos os sistemas, inclusive os de informação?

Sendo assim, a explosão informacional do pós-guerra, que estimulou o surgimento da Ciência da Informação não foi apenas mais uma, entre tantas outras antes do surgimento da mesma? Não seria, então, a história da Informação um fator chave para entender a Internet, de certa forma, como fez Lévy ao analisar o ciberespaço, indo às origens dos meios de comunicação?

E que, a partir dessa lógica, não podemos criar uma regra que explique as mudanças dos sistemas da informação ao longo da história contando-o a partir das diversas explosões, mudando de forma, como sugere Galileu e Thompson para entender melhor a Internet e a Web 2.0 e, finalmente, os ambientes colaborativos?

E recorrendo a proposta de Lévy, que procurou na história da comunicação uma explicação da Internet:

(Do oral ao escrito;
Do escrito ao livro;
Do livro aos meios de comunicação;
E destes para a Internet.)

Não poderíamos recontar a história da informação, através das explosões?

Do silêncio – a incapacidade total de se informar e ser informado;
Aos grunhidos e gestos – que explodem por limites de expressão;
A fala – que implode a memória;
E desta para a escrita, que implode os papiros soltos e deságua nos livros, que nos leva aos meios de comunicação de massa e destes para a Internet com seu hipertexto?

Não seria, assim, então, a web 2.0 a implosão do hipertexto, que pela incapacidade de ser gerenciado, através do Altavista e similares, precisou criar um novo ambiente, liderado pelo Google?

E não é então o Google, a primeira ferramenta de busca a utilizar o muito para muitos, proposto por Lévy, que inaugura a nova fase da rede de um novo tipo de sistema de informação baseado na colaboração das pessoas, auto-gerido, não verticalizado?

E não entramos agora, então, no ambiente do qual o ser humano sai da posição passiva na ponta do sistema de informação para seu epicentro, como é o caso do Wikipedia?

E será que esses novos ambientes colaborativos não tendem a atrair os setores mais dinâmicos da sociedade, por uma questão de sobrevivência, tomando-a de assalto? Não seria essa uma nova regra: toda vez que um novo sistema de informação mais dinâmico aparece na sociedade, da palavra à Web 2.0, gradualmente toma de assalto, alterando gradualmente todos os outros?

Se tudo isso puder ser alinhavado, surge, então, as questões que me fazem perguntar se a Ciência da Informação vai resistir à Internet, na atual nova versão e nas próximas:

1) se os sistemas de informação estão baseados em documentos e a relevância dos estoques dependem basicamente da capacidade dos profissionais da informação em ofertá-los classificá-los e torná-los da melhor forma possível recuperáveis;

2) Se a qualidades dos novos estoques vão depender das pessoas que dele fazem parte, saindo da idéia de estoque de documentos para comunidade de pessoas;

3) se os novos sistemas informacionais, geralmente mais dinâmicos, tendem a ser hegemônicos na sociedade, atingindo todos os demais, alterando-os e influenciando-os;

4) se os novos ambientes que nos aponta o futuro são organizados basicamente pelos ex-usuários, agora colaboradores.

De onde tiraremos os subsídios da Ciência da Informação que está estruturada para gerenciar documentos e estoques imateriais e agora terá que lidar com seres vivos?

Não saímos, então, de um sistema de informação simples, como os quais temos ferramentas para lidar, para um novo bem mais complexo, já que teremos o gerenciamento de pessoas?

Thomas Kuhn garante que as Ciências de tempos em tempos esbarram em anomalias, que precisam ser compreendidas para virar regras.

Acredito que a Internet é uma anomalia que não atinge apenas a Ciência da Informação, talvez essa a Comunicação e a Computação sintam o impacto primeiro, mas todas as outras, principalmente, as sociais e humanas, terão que mais dia ou menos dia a lidar com o que Castells definiu como a nova Sociedade em Rede.

E, neste momento, cabem as perguntas:

A Ciência da Informação resistirá a Internet, ou se transmutará como acredita Galileu? Caso sim, de que maneira? Conseguirá sobreviver sozinha ou precisaremos de uma nova Ciência, como a nova Ciência Web ou da Rede, na qual todas as áreas estarão mais próximas?

Sem ainda nenhuma conclusão, inquieto e (confesso) assustado com os caminhos que acabei trilhando na minha tese, deixo a tarefa para os próximos anos do doutorado.

Sugestões e críticas são bem vindas.


Referências Bibliográficas

BARRETO, A. A. . OS Agregados de informação: memória, esquecimento e estoques de informação,  Datagramazero, Rio de Janeiro, v. 01, n. 03, p. 05-11, 2000.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Perspectiva, 1999.

LÉVY, Pierre. A Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.


Quatro redes e um dilema

outubro 30, 2008

20.09.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

No evento Web 2.0 da Revista Info, organizado em São Paulo, no dia 17 de setembro, pudemos ver que ainda temos poucas experiências concretas nas empresas na implantação de projetos colaborativos, utilizando as novas tecnologias e participativas disponíveis (vou evitar usar o termo web 2.0 para diminuir resistências).

Na verdade, as instituições estão tateando nesse mundo colaborativo.

Lá, pudemos ouvir o relato da experiência dos portais de conteúdo (UOL, Terra e Globo Online) com a abertura de comentários para leitores, blogs e comunidades, do qual participei.

E algumas experiências Wikis em empresas, no caso da Amil e Hering. E uma rede colaborativa da Le Postiche.

Na verdade, o que a maioria queria saber, pelos papos que tive nos corredores do evento, é o que vai acontecer com o nosso velho portal, tanto na internet como na intranet.

E, para variar, os alarmistas de plantão, consideram que é preto ou branco. Ou agora é tudo colaborativo. Ou ainda que tudo fica como antes, no quartel online de Abrantes!

Mas ao que tudo indica, teremos um cinza hiper-multicolorido.

A história dos sistemas de informação demonstra que uma nova etapa que surge, a partir de novas tecnologias de comunicação, parte da assimilação e incorporação da anterior, modificando-a com o tempo, para a instauração de uma nova fase, permitindo uma melhor dinâmica da circulação de idéias, troca de conhecimento e, por sua vez, ampliação da competitividade, com geração de riqueza para os que dela tiram proveito.

Ninguém deixou de gesticular quando passamos a falar. Ou ficou mudo, ao escrevermos. E nem deixamos de escrever, quando pudemos falar a distância pelo rádio ou aparecer de corpo inteiro na televisão.

Houve modificações e adaptações, mas não substituições. E quem se apropriou desses instrumentos com mais inteligência, teve vantagens.

Assim, pela experiência adquirida, os novos ambientes colaborativos se incorporarão e se integrarão ao que já temos de forma rápida, pois é um elemento de competição em direção ao mercado futuro. Ajudarão a consolidar as redes existentes, dinamizando-as e criando novas na perspectiva de ampliar e dinamizar o conhecimento, peça fundamental para o desenvolvimento do ser humano.

Hoje, já podemos identificar quatro tipos de topologias de rede que já convivem no mundo da cibercultura, a primeira mais tradicional e majoritária e as outras incipientes, mas tendendo a rápida expansão.

Quatro tipo de topologias de rede

1. Tipo de rede: vertical (majoritária)
Característica: eu coloco conteúdo e você consome;
Aplicação na internet: a maioria dos sites hoje da internet e intranet.

2. Tipo de rede: horizontal direta sem alteração de conteúdo original (em expansão);
Característica: eu coloco conteúdo e você comenta;
Aplicação na internet: portais como UOL, Terra e Globo, quando permitem comentários nas notícias;

3. Tipo de rede: horizontal indireta sem alteração de conteúdo original (em expansão);
Característica: eu deixo você colocar e criar a sua rede horizontal simples;
Aplicação na internet: Globoonliners, quando permite que usuários criem seus blogs e comunidades;

4. Tipo de rede: horizontal com alteração de conteúdo original (em expansão);
Característica: eu coloco o meu conteúdo e você pode alterá-lo;
Aplicação na internet: Wikipedia, Wiki da Amil e da Hering.

A tendência dos portais não será adotar uma ou outra destas topologias de rede, mas integrá-las, pois cada setor, segmento, tipo de informação se tornará mais dinâmico a usar determinada topologia, a saber:

  • O planejamento estratégico, por exemplo, é um registro de um determinado momento e vale como um documento importante a ser armazenado. Encaixa-se melhor na topologia vertical, sem comentários. É um registro.
  • Já as avaliações do planejamento, na sua aplicação e específicas, podem ser incorporados no rodapé do mesmo, complementando-o e enriquecendo-o ao longo do tempo;
  • As pessoas podem ainda complementar as idéias do planejamento estratégico, através dos seus blogs e comunidades, detalhando-as e adaptando para cada uma das áreas da instituição e incluir esses comentários também ao rodapé do documento original, (tantos os feitos nos blogs e nas comunidades);
  • E pode-se ainda ter uma reconstrução do planejamento estratégico no formato wiki, como que um ser vivo que vai se modificando por toda a organização, a partir do documento original preservado, criando um novo ao longo do tempo.

São necessidades diferentes, que exigem topologias de rede distintas e ferramentas específicas, que, no seu conjunto e uso, vão dar para aquele grupo um dinamismo interessante.

O desafio agora é ter ferramentas, conceitos e capacitação dos incentivadores da rede para integrar esses quatro modelos e tornar isso tudo amigável e transparente para que o conhecimento flua cada vez de forma mais invisível para os participantes.

Essa é a grande oportunidade para os profissionais que trabalham com rede e o desafio para as empresas que vão contratá-los.

A idéia é que esses profissionais sejam capazes de deixar que de cada blog, novo espaço de trabalho nas empresas, cada um coloque a informação ali e de lá para qualquer lugar, como nas comunidades, no ambiente wiki, no portal institucional e vice-versa.

A internet e intranet passam a ser uma grande rede social, integrando os quatro ambientes disponíveis, e de cada lugar será possível compartilhar conhecimento nas diferentes topologias que cada informação exige.

Esse é o novo conceito! Um bom novo dilema para a sociedade em rede.

Quem conseguir resolvê-lo com mais rapidez e eficiência vai sair na frente e conseguirá, com certeza, um espaço especial com vista para o mar do futuro.


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