Plataformas do conhecimento: decifra-me ou te devoro!

outubro 31, 2008

19.12.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

Vivemos hoje um fato inédito na história da humanidade: a passagem em apenas uma geração de três plataformas do conhecimento: da digital (50-90) à rede (95-04) e desta para a rede colaborativa (04- ?).

Nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde ir. (Sêneca) Por que inventamos os grunhidos, a fala, a escrita, o livro? Por que o ser humano inventou o computador? Por que, na seqüência, bolou a Internet e agora já dissemina a rede colaborativa?

Quais são os motivos que nos levam a criar sistemas de conhecimento baseados nas cada vez mais dinâmicas tecnologias de informação e comunicação?

São questões levantadas pela minha pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação, convênio UFF
(www.uff.br)/-IBICT (www.ibict.br), tendo como orientador o professor Aldo Barreto, (http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/ visualizacv.jsp?id=K4787417T9) financiada pelo CNPq (http://www.cnpq.gov.br/) É a continuação do estudo que iniciei com o professor Marcos Cavalcanti (http://oglobo.globo.com/blogs/inteligenciaempresarial/default.asp?a=280&periodo=200706), ao publicar o livro Conhecimento em Rede (http://www.campus.com.br/script/Cpsdetalhe.asp?pStrCodSessao=B195D8AA-D27D-44C9981A2BA5 DDD5E718&pIntCodProd uto=101530&pStrArea=0), no ano passado pela Editora Campus.

 

Que se desdobra agora no meu primeiro artigo acadêmico “As Plataformas do Conhecimento”, (http://www.dgz.org.br/dez07/F_I_aut. htm) publicado este mês de dezembro de 2007, na revista eletrônica DataGramaZero, que resumo aqui.

Partimos do princípio que a humanidade – diferente dos outros seres vivos do planeta – para sobreviver, se organiza, através de sistemas de conhecimento, tendo como núcleo central tecnologias de comunicação e informação, pela ordem na história: grunhido, fala, escrita, livro, computador, meios de comunicação de massa, internet e agora, a nova rede colaborativa, que têm como núcleo central ferramentas colaborativas.

Os sistemas de conhecimento sempre tiveram missão de disseminar e confrontar idéias, tirando da informação significados relevantes, para gerar desenvolvimento e permitir que a espécie humana sobrevivesse e evoluísse ao longo dos séculos tanto para comer, vestir, morar, criar…

Até aqui, sistemas de conhecimento não ganharam importância devida na história, pois demoravam séculos para serem alterados. Mas atualmente com o ambiente de inovação atual isso mudou. Passaram a serem alterados a cada década (com a tendência a diminuir esse intervalo) ganhando assim status de conceito-chave para entender nosso futuro.

Conceituamos esses sistemas como Plataformas do Conhecimento, que – ao longo da história – têm nos ajudado na luta pela sobrevivência humana.

Eis, de forma preliminar, as regras básicas das plataformas, que cheguei até aqui com minha pesquisa:

1. As plataformas do conhecimento não são lineares. Pelo contrário, apresentam quebras, rupturas. Esgotam-se pela incapacidade de
continuarem eficazes na evolução da sociedade (vide o discurso oral, o livro, o computador, a própria internet sem colaboração). Quando um ciclo termina, a plataforma entra em declínio, surge a nova, incorporando e transformando o fluxo de informação da anterior com novo dinamismo;

2. Desta forma, uma nova plataforma surge para resolver impasses (entropias) criadas e deixadas pela última e trazer novo espaço de inovação e desenvolvimento para a sociedade. O livro impresso e os jornais foram utilizados por Martinho Lutero (http://pt.wikipedia.org/wiki/Martinho_Lutero) para acabar com o monopólio de saber da Igreja Católica. Como a rede nos trouxe o MP3; e a rede colaborativa, ainda incipiente, o Linux. Ambos, quebram monopólios de produção de conhecimento atuais;

3. Mas, ao mesmo tempo que desata nós, a nova plataforma já traz em si novas entropias, pois, ao aumentar a velocidade e o fluxo das informações de forma mais dinâmica, gera, já no momento que surge, novos problemas de significado, ao não permitir transformar o volume disperso de informação em conhecimento, gerando, ao mesmo que resolve um problema, um novo, criando a necessidade para a nova plataforma;

4. A nova plataforma que surge estará sempre contida na anterior, como foram os diferentes ambientes colaborativos na rede, dos chats ao YahooGroups, antes da difusão em massa da rede colaborativa;

5. Cada plataforma tem, assim, uma tecnologia-mãe, um núcleo central, que impulsiona todo resto. Ontem foi o grunhido, a fala, a escrita, o livro, o computador, a rede eletrônica. Hoje, entramos na plataforma da rede colaborativa (na qual as ferramentas colaborativas, como já dissemos, impulsionam a nova dinâmica);

6. As plataformas sempre foram criadas, até aqui, de forma espontânea e não planejada, através de tecnologias-núcleos, que não tiveram na sua concepção a dimensão do seu verdadeiro potencial. Nem Gutemberg projetou a prensa de tipos móveis para viabilizar as revoluções européias que se seguiram, nem os cientistas americanos imaginaram que a rede de longa distância (batizada tempos depois de internet) teria bilhões de usuários em menos de 20 anos de existência e mudaria a configuração da sociedade;

7. Ao serem apoderadas e disseminadas pelos que querem mudar e inovar, as novas plataformas passam por um ciclo rápido de expansão, a partir da adesão dos habitantes do planeta, que, intuitivamente, percebem nelas vantagens sobre a anterior. Assim, o que define a difusão de uma plataforma não é apenas a vontade de difundi-la, mas a real capacidade de acelerar o fluxo da informação e de ganhar, com isso, a adesão das pessoas. Sem massificação, portanto, não existe plataforma;

8. Elas, entretanto, não são homogêneas na sua difusão. Já que até hoje existem tribos indígenas que não têm escrita, comunidades adultas que não sabem ler, outras tantas que nunca viram computador e muitas que já o utilizam, mas ainda não se conectaram em rede, muito menos participaram de comunidades online;

9. Mas, apesar de não homogêneas, tendem a hegemônicas para geração de valor, atraindo os setores mais dinâmicos, que necessitam delas para sobreviver, impondo o novo padrão ao resto da sociedade ao longo do tempo. É fato: aonde existir e estiver se formando riqueza, a nova plataforma será adotada e largamente utilizada! E, o oposto, também se aplica: aonde não for adotada, deixará um rastro de pobreza. (Quem sabia ler, ficou com as melhores terras!);

10. Cada plataforma que surge abre novo ciclo de mudanças sociais, políticas e econômicas. Ou seja, delineiam o ambiente para que o ser humano gere novas idéias e, assim, movimente, na luta pelo poder (de ter, ser, dominar e fazer) a roda da história. Não haveria revolução francesa sem o livro e os jornais; nem Linux, sem internet. Uma mudança alimenta a outra em um processo dialético. Vivemos hoje, portanto, um fato inédito na história da humanidade, a passagem – em apenas uma geração – de três plataformas do conhecimento: da digital (50-90), à rede (95-04) e desta para a rede colaborativa (04-?).

Criando um novo paradoxo contemporâneo: a cada nova plataforma, mais velocidade, mais soluções, problemas e entropias, num ciclo cada vez menor, que como uma esfinge nos pergunta, ainda sem resposta no Google ou no Wikipedia:
Decifra-me, ou te devoro!


Em qual versão da web está sua instituição?

outubro 31, 2008

07.09.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

A integração entre os softwares de gestão de conteúdo e os novos softwares de gestão de comunidades é o principal desafio da web, que aparece aqui e ali nos projetos mais avançados.
(Versão 2.0 deste artigo sem nenhuma referência a Web 2.0, Web 1.0, ou similares para facilitar o entendimento e a discussão, com algumas modificações em relação à versão anterior, atendendo a sugestões de leitores e mantendo os comentários originais).

A integração entre os softwares de gestão de conteúdo e os novos softwares de gestão de comunidades é o principal desafio das redes sociais eletrônicas, que aparece aqui e ali nos projetos mais avançados.

Recebo o e-mail de um visitante do site do Instituto de Inteligência Coletiva (ICO), do qual sou coordenador e que tem como missão difundir o conhecimento em rede na sociedade brasileira.

Ele escreve: “Vocês falam em Inteligência Coletiva, mas o site de vocês de coletivo não tem nada!”

Realmente o site é caretinha, sem interação e respondo: “Você tem razão, aguarde mais um pouco que teremos novidades!”

A justa cobrança me fez pensar um pouco nas várias etapas que todos nós teremos que passar na internet agora, finalmente, sem gelo e colaborativa.

Note que o ICO já tem a consciência fase colaborativa da Internet, mas não alterou o modo de ser por falta de ferramenta. Essa é a realidade que o mercado está se dando conta. Quando montamos o site pensamos em uma ferramenta de gestão de conteúdo interativa, mas abortamos a idéia.

Decretamos:

“Ou vai ser totalmente colaborativo, encadeando blogs e comunidades, ou é melhor fazer em html, até que a nossa ferramenta livre, o Icox, permita algo assim.”

Já podemos, entretanto, por todo os projetos que estamos acompanhando fazer uma primeira tabela das versões (ou etapas) da internet e ajudar para que você se enquadre. Importante: não estamos criando isso em cima de teorias, mas do que tem sido visto em mais de dez projetos que monitoramos de perto:

Fase pré-colaboração. A instituição ainda considera que internet é uma lista de pedidos de informações de usuários para os quais não tenho condições de responder a contento;

Fase pós-colaboração, sem visão. A instituição ouviu falar de colaboração, abriu espaço de participação mais ativa, mas não tem a nova cultura. O usuário começa a colaborar, mas sob vigilância e – algumas vezes – censura, e vê logo que é algo vazio (necessariamente nem todos precisam ou passam por isso);

Assumindo a fase colaborativa. A instituição olhou para os lados, para os concorrentes, para problemas internos e resolveu se abrir para uma nova cultura. Não sabe exatamente para onde tem que ir, mas sabe que tem que mudar;

Primeiros projetos colaborativos. A instituição inicia projetos experimentais, mantendo a sua estrutura original, mas criando ambientes colaborativos em locais separados e começa a vivenciar as primeiras experiências colaborativas sem interferência antes, mas com monitoramento qualitativo posterior (e passa a aprender com isso);

Integrando o não colaborativo com o colaborativo. Começa o projeto de integração da presença não colaborativa com os ambientes colaborativos, levando tudo para um mesmo ambiente. O problema aqui tem sido ferramenta, já que não temos nada assim no mercado. As novas já colaborativas não têm gestão de conteúdo. E estas não têm colaboração;

Fase final de integração. Será a chegada das ferramentas de integração plena, onde não haverá diferença entre o espaço institucional, as comunidades, os blogs, a internet e a intranet. Tudo estará em um ambiente integrado, colaborativo, separado por filtros do que pode ser lido dentro e fora. E o que pode ou não ter comentários (ver mais detalhes abaixo);

Colaboração plena. Aprofundar esses ambientes, tanto em termos de metodologia de relação com a comunidade como aprimorar as ferramentas, criando conceitos totalmente novos, a partir dessa nova sinergia, preparando o terreno para a fase pós-colaboração, na qual os robôs de comunidades terão um papel fundamental.

Assim, posso dizer que o projeto Icox e o ICO estão vivendo o processo de integração dos dois mundos. Começamos a discutir publicamente a integração do conteúdo com a comunidade. (Para ver e comentar é preciso ainda ter cadastro no Icox de referência do projeto.) A idéia desse novo módulo do Icox é criar um ambiente institucional dentro da colaboração.

Nele, o administrador vai definir quais blogs, quais comunidades podem editar quais áreas do bloco institucional, que terá áreas e sub-áreas próprias.

Posso dizer, por exemplo, que a parte sobre notícias internacionais do site institucional terá como responsável a comunidade Icox_no_exterior. E as notícias sobre instalação do produto, pela comunidade dos administradores.

Assim, quando uma comunidade ou um usuário publicar algo, ao mesmo tempo, terá uma opção de incluir também na área institucional de forma integrada e transparente. No blog, por exemplo, vai se poder comentar, mas na parte institucional, por algum motivo, a critério de cada caso, não.

A integração entre os softwares de gestão de conteúdo e os novos de gestão de comunidades é o principal desafio da atual fase colaborativa da Web, que aparece aqui e ali nos projetos mais avançados.

Assim que a ferramenta estiver pronta, passaremos o site do ICO para vivenciar um modelo totalmente novo, tirando aquele ambiente não-colaborativo. Algo de ponta, ao estilo da nova fase de colaboração. Conto para isso com sua sugestão e comentários!


Pinto no lixo

outubro 31, 2008

A internet revoluciona o mundo ou o mundo usa a internet para se revolucionar? Livro “Uma história social da mídia, de Gutemberg à Internet”, tenta explicar.
03.09.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

O ovo ou a galinha? Me arrisquei em uma palestra a responder: o galinhovo ou ovolinha! Na verdade, a versão 1.0 desse animal, que foi evoluindo em novas versões até se separar em alguma delas e virar o que temos hoje: o ovo 2.0 e a galinha 2.0, que levamos para casa para assar e fazer omelete.

O assunto veio à baila, pois cabe também perguntar: é a internet que revoluciona o mundo ou o mundo que usa a internet para se revolucionar?

É um dos temas do ótimo livro “Uma história social da mídia, de Gutemberg à Internet”, de Asa Briggs e Peter Burke, da Zahar.

Nele é narrada a mudança do mundo com a chegada da prensa, inventada por Gutemberg em 1450, que permitiu com a multiplicação de editoras a circulação em maior escala de jornais e livros.

Um processo de mudança cultural que resultou em diversas revoluções posteriores, tais como a Industrial, Francesa, Americana e a Russa, esta quase 400 anos depois.

O autor argumenta que não se pode considerar a invenção do livro e dos jornais impressos como principal agente dessas mudanças, mas apenas um propiciador, na qual diversos interessados em transformar a sociedade se apoderaram de seus recursos para atingir objetivos

Na verdade, se não houvesse jornal e livro, Lênin não teria lido Marx, que por sua vez não teria lido Hegel. E Lênin não teria publicado o Iskra (Faísca), jornal com o qual os bolcheviques espalharam suas idéias pelo antigo império.

Ao ler o livro de Brig e Burke reforçamos ainda mais a idéia de que mudanças de paradigma de comunicação afetam profundamente a sociedade.

Diferente de outras tecnologias que também mudam o planeta, mas ainda de uso restrito, como um foguete que, por enquanto, leva apenas alguns poucos humanos ao espaço, a comunicação e a informação são ferramentas básicas para a sobrevivência da espécie para produzir e, portanto, comer, beber, morar e se alimentar.

Se uma nova possibilidade é capaz de fazer tudo isso de uma forma diferente, melhor e mais ágil, é logo difundida rapidamente, esbarrando, claro, nas resistências do poder estabelecido, como foi na época da proibição da publicação de livros em vários países, no século XVI e XVI, como é hoje na China, que limita a internet.

As novas tecnologias de comunicação e a informação, assim, marcam grandes eras na história da humanidade, a saber: o silêncio, os urros, a fala, a escrita, o livro, os meios de comunicação de massa e, agora, a internet.

Nesse processo de rupturas e não de evolução, o ser humano na nova era vai maturando as diversas novas potencialidades do novo meio e dando a alguns revolucionários de plantão novas respostas possíveis, antes inviáveis, a velhas perguntas: “por que será que isso é assim?”.

- Por que será que eu compro um CD inteiro quando quero apenas uma música?

- Por que será que eu pago tão caro para falar com meu primo no exterior?

- Por que será que eu tenho que sair de casa para comprar os livros que preciso para ir à escola?

- E por que será que não posso comparar os preços e ver qual é o mais barato?

- Por que será que eu não posse desenvolver livremente um software com os meus amigos e colocara para o planeta todo usar?

E algo que já anda circulando pelo mundo:

- Por que será que eu voto em um parlamentar para decidir algo que agora já posso fazer de casa?

Assim, podemos dizer que as mudanças na comunicação e informação são agentes condicionantes de alterações sociais. Sozinhas não geram nada, mas na relação do homem transformador com a nova técnica surge uma outra possibilidade, uma verdadeira neo-filosofia, um jeito diferente de olhar para o mundo, que permite, assim, resolver problemas antes insolúveis.

E tudo entra em espiral galopante para cima.

Vide os últimos 15 anos da rede. Assim, a Web 2.0 é, no fundo, o início da fase que a galinha (nova) sai do ovo (velho). Ou da galinha (velha) que gera um (novo) ovo. Os que querem mudar a sociedade estão que nem pinto no lixo!


A sociedade está pronta para a Web 2.0?

outubro 31, 2008

16.08.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

Estamos diante de um impasse: uma nova geração sabe como é bom e produtivo estar em um ambiente como o Orkut. Mas a escola, a empresa e a própria sociedade não estão preparados para essa nova realidade.

Fui almoçar com um professor da Universidade Federal Fluminense.

Ele é um dos entusiastas do uso das redes sociais na UFF e está experimentando o Orkuff, projeto que utiliza o Icox, software livre para criação de redes sociais.

Pois bem, discutimos como foi o primeiro semestre, no qual ele abriu uma comunidade para que os alunos de sua turma administração participassem.

Professor – Nepô, os alunos não estão participando, preferem o Orkut.

Eu – Você alterou algo na sua disciplina para que eles participem?

Professor – Não, a estrutura é mais ou menos a mesma.

Nepô – Talvez aí esteja o problema.

Saí pensando sobre o assunto e estou cada vez mais convencido que não adianta querermos implantar um novo paradigma de comunicação das redes sociais em estruturas hierárquicas e verticalizadas, como tradicionalmente é o caso de uma universidade.

No livro O Lado Oculto das Mudanças – A Verdadeira Inovação Requer Mudança de Percepções, de Luc de Brabandere, o autor diz uma verdade muito inquietante.

Primeiro, precisamos mudar a maneira como vemos o mundo para depois conseguir alterá-lo.

Assim, a prática de instalação do Icox, na UFF e em outros locais, tem demonstrado que não basta uma ferramenta Web 2.0 em uma escola ou empresa 1.0.

Ou se muda a empresa e a escola, construindo uma nova maneira de organizar a estrutura, ou os projetos Web 2.0 serão muito interessantes, bonitinhos, modernos, mas tendem ao fracasso.

Notem que o Orkut, por ser implantado na rede, aterrissou em cima de uma estrutura física inexistente, reunindo pessoas e criando uma nova forma de organização social, na qual o conteúdo vem de baixo para cima.

As pessoas passam a ter uma identidade, definem gostos e dizem com quem querem se relacionar.

Ao migrar esse conceito para estruturas reais, obviamente haverá uma falta de sintonia entre a organização na web e a que existe fora dela.

Uma coisa passa a não rimar com a outra. Claro que já existem empresas que trabalham mais em rede do que outras e essas terão mais facilidade, mas, de qualquer forma, a liberdade de participação nas pontas é um choque cultural gigantesco.

(A IBM, por exemplo, está vivendo um projeto desse tipo e acaba de lançar o Lotus Connections, que é apenas um Orkut para grandes empresas.)

Assim, projetos Web 2.0 não são tecnológicos, mas culturais, de gestão, que deve envolver uma reflexão de toda a organização e não apenas mais um projeto “da galera da informática” ou “da gestão do conhecimento”, ou “do Recursos Humanos”.

Não basta instalar uma ferramenta.

No fundo, estamos diante de um impasse.

Uma nova geração está vendo como é bom e produtivo estar em um ambiente como o Orkut, mas a escola, a empresa e a própria sociedade não estão preparadas para essa nova realidade.

Agora é um problema de cabeça e não mais tecnológico, já que o Icox, por exemplo, está na rede e é de graça!

Diante disso, tenho tentado em outro projeto no curso de MBA em Gestão de Conhecimento Crie da UFRJ repensar a própria escola.

Neste semestre, os alunos fizeram como trabalho de final de curso o que seria a tal Escola 2.0. Podemos dizer que não sabemos exatamente o que será, mas já temos algumas pistas do que com certeza não pode mais ser, a saber:
Por que uma turma que sai de uma disciplina não deixa nada para a nova que vai entrar e por que não continua acompanhando as novidades, caso queira, em um ambiente virtual?
Por que os alunos não podem ler o trabalho dos outros alunos entregues hoje apenas para o professor, ampliando a responsabilidade do professor ao dar nota e do aluno ao publicá-lo?
Por que os novos alunos não podem melhorar o trabalho dos ex-alunos?
Por que todos os alunos e professores não podem ampliar os links, bibliografias, vídeos, áudios, num processo contínuo, criando algo como a “disciplina que aprende”, durante e depois do curso?
Por que disciplinas com o mesmo conteúdo em outras instituições não podem compartilhar o mesmo assunto, criando um anel de conhecimento multi-instituições?

Ou seja, como disse Pierre Lévy na sua entrevista, nessa visita recente ao país, em agosto de 2007, acredito que a web veio para mudar o mundo e construir uma nova sociedade.

Qualquer coisa diferente disso, infelizmente, ou felizmente, vai se mostrar capenga e não vai dar certo!

Se não é para mudar de fato, sugiro não se mexer com a Web 2.0. Vai ser gastar tempo e dinheiro e o tiro pode sair pela culatra!


A ciência da informação resistirá à Internet ? – reflexões soltas de um aluno de doutorado

outubro 31, 2008

Artigo publicado originalmente no DataGrama Zero, http://www.dgz.org.br/ago07/F_I_com.htm
14.08.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

“As hipóteses são redes: só quem as lança colhe alguma coisa.” (Novalis).

Ao entrar no doutorado, acreditem, a minha tese tinha um objetivo claro e pouco ambicioso: estudar os ambientes colaborativos da Internet.

Nada mais. Ali, o que me encanta e inquieta é o caos controlado do Wikipedia, do Slashdot, da criação coletiva do Linux e de tantas outras comunidades em rede.

Como existir sem um pai, um irmão mais velho ou um chefe poderoso que a todos controla? É possível?

Ao tentar pensar sobre o problema, como um fio que vai puxando vários outros, quase um hipertexto sem fim, precisei subir um degrau: afinal, o que é a Internet, esse espaço mágico que habitamos há 15 anos que tantos nos dá e nos cobra?

Sim, concordo com Pierre Lévy que é o primeiro meio de comunicação do muito para muitos, das salas de Chat, das listas de discussão, dos ambientes colaborativos, agora batizados de redes de relacionamento, que se espalham nesse novo fenômeno batizado de Web 2.0.

Mas como explicar a nova Web 2.0 sem poder dizer exatamente o que foi a Web 1.0? Ou mesmo compreender, através de uma lógica simples ou complexa o surgimento da própria rede na sociedade? Como explicar algo sem começar pelo fio da meada?

Que lógica há por trás da rede que a tudo toma numa velocidade de Fórmula 1? Para, assim, por fim, explicar como os ambientes colaborativos estão se impondo e concluir a minha tese.

E aí surge o termo explosão da informação, ecoando por sobre os diferentes textos da nossa área. A Ciência da Informação surgiu para resolver o problema da explosão da informação do pós-guerra. Vivemos uma nova explosão do hipertexto.

Já entramos na explosão dos ambientes colaborativos.

Já que venho do lado pragmático dos profissionais da informação, percebi uma fenômeno comum ao longo dos meses recentes de contato com alguns clientes e amigos já no mundo Web 2.0: que batizei de “Ponto G”, o ponto de gargalo.

É um determinado momento em que um sistema de informação determinado, começava a ficar tão incontrolável e inútil, que a empresa precisa passar para uma nova etapa disponível, no caso a Web 2.0.

Isso ficou mais claro quando escutei:

“Chegou uma hora que eu não conseguia mais controlar os comentários dos usuários e deixei de lado, liberando qualquer um a postar o que quisesse, seja o que Deus quiser!”, cliente 1.

“Há muitos textos sobrando e tantos, que precisei criar um novo site, no qual o usuário coloca direto sem passar por mim para dar vazão ao processo”, cliente 2.
 

(O mesmo fenômeno, aliás, quando as empresas se sentiram impelidas a ingressar na Internet para divulgar e, depois, vender produtos.)

Então, pensei: hummm, existe um determinado momento chave, no qual determinado sistema implode? E perguntei para Aldo Barreto, meu orientador, tomando um café expresso descafeínado no Rio Sul, se tínhamos algo parecido na literatura.

Prontamente me apresentou dois conceitos importantes, já presentes em textos escritos por ele, para o trabalho, vindo de fontes inusitadas:

Nenhum organismo biológico ou instituição humana, que sofra uma mudança de tamanho e uma conseqüente mudança de escala, passa por isso sem modificar sua forma ou conformação, (Galileu, há mais de 350 anos).

E ainda:

O conhecimento, potencialmente armazenado em estoques de informação, acumula-se exponencialmente em estruturas que lhe servem de repositório. Mesmo colocando-se filtro de entrada para limitar qualitativamente o crescimento destes estoques, a coisa toda tenderá a ruir em pedaços, devido ao seu próprio peso, a menos que se modifique as proporções relativas da estrutura em relação ao seu conteúdo físico, (D’Arcy Thompson,1961).

Uma luz se acendeu.

Existe, então, determinado momento na história das empresas e na sociedade que determinado sistema de informação explode? E, assim sendo, a explosão (e a própria Internet) não seria então uma anomalia, conforme Kuhn, que ocorre de tempos em tempos, mas uma regra, que guia todos os sistemas, inclusive os de informação?

Sendo assim, a explosão informacional do pós-guerra, que estimulou o surgimento da Ciência da Informação não foi apenas mais uma, entre tantas outras antes do surgimento da mesma? Não seria, então, a história da Informação um fator chave para entender a Internet, de certa forma, como fez Lévy ao analisar o ciberespaço, indo às origens dos meios de comunicação?

E que, a partir dessa lógica, não podemos criar uma regra que explique as mudanças dos sistemas da informação ao longo da história contando-o a partir das diversas explosões, mudando de forma, como sugere Galileu e Thompson para entender melhor a Internet e a Web 2.0 e, finalmente, os ambientes colaborativos?

E recorrendo a proposta de Lévy, que procurou na história da comunicação uma explicação da Internet:

(Do oral ao escrito;
Do escrito ao livro;
Do livro aos meios de comunicação;
E destes para a Internet.)

Não poderíamos recontar a história da informação, através das explosões?

Do silêncio – a incapacidade total de se informar e ser informado;
Aos grunhidos e gestos – que explodem por limites de expressão;
A fala – que implode a memória;
E desta para a escrita, que implode os papiros soltos e deságua nos livros, que nos leva aos meios de comunicação de massa e destes para a Internet com seu hipertexto?

Não seria, assim, então, a web 2.0 a implosão do hipertexto, que pela incapacidade de ser gerenciado, através do Altavista e similares, precisou criar um novo ambiente, liderado pelo Google?

E não é então o Google, a primeira ferramenta de busca a utilizar o muito para muitos, proposto por Lévy, que inaugura a nova fase da rede de um novo tipo de sistema de informação baseado na colaboração das pessoas, auto-gerido, não verticalizado?

E não entramos agora, então, no ambiente do qual o ser humano sai da posição passiva na ponta do sistema de informação para seu epicentro, como é o caso do Wikipedia?

E será que esses novos ambientes colaborativos não tendem a atrair os setores mais dinâmicos da sociedade, por uma questão de sobrevivência, tomando-a de assalto? Não seria essa uma nova regra: toda vez que um novo sistema de informação mais dinâmico aparece na sociedade, da palavra à Web 2.0, gradualmente toma de assalto, alterando gradualmente todos os outros?

Se tudo isso puder ser alinhavado, surge, então, as questões que me fazem perguntar se a Ciência da Informação vai resistir à Internet, na atual nova versão e nas próximas:

1) se os sistemas de informação estão baseados em documentos e a relevância dos estoques dependem basicamente da capacidade dos profissionais da informação em ofertá-los classificá-los e torná-los da melhor forma possível recuperáveis;

2) Se a qualidades dos novos estoques vão depender das pessoas que dele fazem parte, saindo da idéia de estoque de documentos para comunidade de pessoas;

3) se os novos sistemas informacionais, geralmente mais dinâmicos, tendem a ser hegemônicos na sociedade, atingindo todos os demais, alterando-os e influenciando-os;

4) se os novos ambientes que nos aponta o futuro são organizados basicamente pelos ex-usuários, agora colaboradores.

De onde tiraremos os subsídios da Ciência da Informação que está estruturada para gerenciar documentos e estoques imateriais e agora terá que lidar com seres vivos?

Não saímos, então, de um sistema de informação simples, como os quais temos ferramentas para lidar, para um novo bem mais complexo, já que teremos o gerenciamento de pessoas?

Thomas Kuhn garante que as Ciências de tempos em tempos esbarram em anomalias, que precisam ser compreendidas para virar regras.

Acredito que a Internet é uma anomalia que não atinge apenas a Ciência da Informação, talvez essa a Comunicação e a Computação sintam o impacto primeiro, mas todas as outras, principalmente, as sociais e humanas, terão que mais dia ou menos dia a lidar com o que Castells definiu como a nova Sociedade em Rede.

E, neste momento, cabem as perguntas:

A Ciência da Informação resistirá a Internet, ou se transmutará como acredita Galileu? Caso sim, de que maneira? Conseguirá sobreviver sozinha ou precisaremos de uma nova Ciência, como a nova Ciência Web ou da Rede, na qual todas as áreas estarão mais próximas?

Sem ainda nenhuma conclusão, inquieto e (confesso) assustado com os caminhos que acabei trilhando na minha tese, deixo a tarefa para os próximos anos do doutorado.

Sugestões e críticas são bem vindas.


Referências Bibliográficas

BARRETO, A. A. . OS Agregados de informação: memória, esquecimento e estoques de informação,  Datagramazero, Rio de Janeiro, v. 01, n. 03, p. 05-11, 2000.

KUHN, Thomas. A estrutura das revoluções científicas. Perspectiva, 1999.

LÉVY, Pierre. A Cibercultura. São Paulo: Editora 34, 1999.


Vai começar um blog mas não sabe o que dizer?

outubro 31, 2008

06.08.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

Os blogs cumprem o papel de criar o outro lado da moeda da mídia tradicional. Quando conseguem fazer isso com eficiência, vão adiante. Quando aliam a isso alguma visibilidade, passam a bem acessados.

Depois de anos colaborando com artigos para diversos jornais e publicações web, resolvi criar o Blogtafogo.

Dois motivos:

Testar na pratica e para valer o Icox, ferramenta que estamos desenvolvendo e foi adaptada para a Infoglobo e acompanhar o meu time cada vez mais líder.

Pois bem, do alto dos meus poucos meses de blog já tenho uma verdade inicial: qualquer um pode escrever o que quiser, óbvio, mas o interesse do leitor é encontrar ali o que não terá em outros lugares, seja informação ou opinião.

Os blogs cumprem o papel de criar o outro lado da moeda da mídia tradicional, quando conseguem fazer isso com eficiência, vão adiante. Quando aliam a isso alguma visibilidade passam a bem acessados.

Anunciar no meu blog que o Dodô foi absolvido, de que adianta, se todo mundo já sabe? Mas dizer como a notícia bateu lá em casa é algo que complementa, acho eu.

Vamos ao resumo do que sempre pensei e agora se consolidou:

1. O blog deve cumprir o espaço do outro lado da mídia, trazer uma visão nova, um site escondido, uma dica interessante, procure sempre um ângulo novo;

2. Os blogs servem mais à opinião do que à informação, pois manter um grupo bem informado exige trabalho e tempo, mercadoria cara hoje em dia;

3. Quando não tiver nada a dizer, fique na sua. Regularidade demais atrapalha. No mar de lixo informacional, acredito que o diferente e relevante chama a atenção;

4. Seja breve. Textos longos e blogs não rimam;

5. Deixe sempre o leitor respirar, divida o texto em parágrafos pequenos;

6. Acompanhe os comentários e intervenha, aqui e ali, mas não sempre, deixe que a conversa role. É horrível quando o blogueiro entra toda hora! Ele é um motivador e não o dono do pedaço;

7. Crie comunidades em torno do blog, (o ICOX e outras ferramentas já permitem algo assim), enviando para eles os novos posts, ou escolha um local que tenha um RSS para colocar seu blog para que o leitor sempre te acompanhe, “sem sair de casa”;

8. Tente se especializar em um assunto ou tema, algo assim fica mais fácil para dominar. Se blogas sobre vários temas, opte até por diferentes blogs (estamos desenvolvendo, neste caso, um multi-blog, em que cada usuário pode dividir os posts por temas fixos, com fotos e layout específico, para facilitar algo assim, mas no mesmo ambiente, podendo, inclusive, postar em mais de um blog ao mesmo tempo). Saiba também usar as tags para ajudar o leitor a encontrar os assuntos;

9. Não faça do seu blog uma ilha, compartilhe alguns posts em listas, em publicações, ampliando o leque de leitores, enriquecendo a visão que têm sobre os assuntos tratados;

10. E o que mais? Comente!


Web 2.0: entrega a Deus!

outubro 31, 2008

30.07.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

Ao abrir espaço para o leitor, o público e o cliente opinarem, muitas instituições e empresas não aguentam o tranco e fecham as portas. Não tem futuro essa abordagem. Há outra melhor.

Há uma crise no ar, além da aérea. Muitas instituições abriram espaço, de diferentes maneiras, para a colaboração dos usuários pela internet.

Tiveram a intuição de que a web caminhava para esse lado interativo. Não estavam errados.

Mas a participação cresceu, o gargalo veio e o que fazer agora?

É o que se pergunta a Submarino, que está ainda no meio barro, meio tijolo da Web 1,5. Veja a extensa discussão sobre o assunto no Webinsider (http://webinsider.uol.com.br/index.php/2007/07/09/hp-nao-da-o-cabo-submarino-nao-da-a-menor-bola/) e na Dicas-L (http://www.dicas-l.com.br/conhecimento_em_rede/conhecimento_em_rede_20070720.php).

Aceitam comentários sobre produtos, mas não liberam livremente a contribuição dos consumidores, ora aceitam, ora não. (Geralmente rejeitam as críticas negativas, criando um clima de desconfiança entre os usuários.) É algo que fica cada vez mais inadministrável, tal o volume das colaborações, que crescem a cada dia. O mesmo ocorre em jornais, sites, por todos os lados.

O remédio para a crise está dado: Web 2.0. A nova filosofia? Simples e direto: entrega a Deus! Ao Deus comunidade. E ao Deus Robô. Ambos vieram para separar o joio (lixo) do trigo (qualidade da informação) de diferentes maneiras.

De forma voluntária: usuários denunciando abusos, comentando, criticando, dando notas, classificando, tagueando.

De forma automática: robôs ordenando por relevância, impedindo palavras hostis, relacionando e buscando. “Não interessa mais o que faz cada abelha, mas como anda toda a colméia”, disse-me um cliente pós-web 2.0.

E eu complementaria: temos que criar canais reais (e não artificiais) para nos envolver, aprender e mudar junto com as colméias, se quisermos estar no ritmo do mundo atual. Qualquer ação diferente dessa tende, a curto e médio prazo, ao fracasso.

Enfrentar, enfim, de frente e sem medo o choque cultural que bate à porta. Aprender a enterrar a cada clique o controle da era pré-web. Não é questão de querer, mas de ter que e pronto. Sim, mais do que tecnologia, a Web 2 veio primeiro mudar cabeças e depois, toda a sociedade.

Resta saber: quem está realmente preparado?


O que um cabo de R$ 7,00 ensina sobre o consumidor

outubro 31, 2008

24.07.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

Prática de vender impressora sem o cabo divide os leitores e abre um grande laboratório coletivo sobre como as pessoas pensam de maneira distinta sobre consumo e uso, relação com fornecedores e publicação online.

Publiquei um artigo, semana passada, que abordava o meu espanto e desagrado com a política da HP de não enviar na caixa, junto com os outros acessórios, um simples cabo USB de R$ 7,00 reais — item fundamental para que uma impressora de R$ 500 se conecte e passe a funcionar.

Mais: denunciei e me surpreendi também em observar que o site Submarino ainda continua a censurar mensagens negativas de produtos enviadas por leitores. Não publicaram o meu protesto e nem enviaram a justificativa, quando avisaram que não iam publicar, apenas uma carta padrão, que aponta para regras gerais.

Os dois artigos — quase iguais — e os comentários podem ser lidos no Webinsider e no Dicas-L.

O que me surpreendeu foi a quantidade de comentários aos dois, (até o momento mais de 200) que complementam a informação e apresentam uma visão geral sobre o problema. E abrem um grande laboratório coletivo de como as pessoas pensam de maneira distinta sobre consumo e uso, relação com fornecedores, publicação online, etc.

(Esse tipo de tema — defesa do consumidor — me parece que mexe com as pessoas e particularmente esse problema do cabo, um absurdo pela falta de explicação lógica.)

Posso resumir o debate da seguinte maneira, em relação ao cabo:

A maioria não concorda com a política da HP em não enviar o cabo, mas há quem defenda que já é uma prática do mercado e que cabe ao usuário aceitá-la.

Em relação à política da Submarino:

A maior parte se mostrou também surpresa, muitos apresentaram problemas similares. Mas também há quem defenda o direito da empresa em não publicar determinados comentários que deponham sobre determinado produto.

Em segundo plano, podemos dizer que há muitas sugestões para que o usuário se informe ao máximo antes de comprar um aparelho, o que é um bom conselho. Mas que isso não deve ser motivo para que os fabricantes não informem até o extremo e de todas as formas, eliminando as dúvidas possíveis dos consumidores.

Na verdade, entretanto, o grande ensinamento, muito mais que o cabo de 7 paus, foi sobre o próprio processo da publicação e discussão com os leitores, o que nos leva a pensar sobre o mundo Web 2.0, que estamos entrando.

Nessa nova etapa precisamos, sem dúvida, mudar um pouco nossa cabeça, nossa maneira de pensar o mundo e até diria de como vemos o outro ser humano. A interação pressupõe duas coisas:

  1. Por mais que eu tenha dados, eles sempre estão incompletos e serão atualizados ao longo da conversa — ninguém sabe tudo e nem viu tudo; 
  2. Por mais que eu ache que a minha opinião é a melhor do mundo, sempre terá alguém que vai pensar de forma diferente e isso enriquecerá de alguma forma meus argumentos, mesmo que seja para concordar ou rebatê-lo.

Para nos prepararmos, de fato, e não no discurso para esse nosso ambiente, precisamos passar a praticar algo que hoje não é valorizado no mundo atual, a tolerância.

E tolerância passa principalmente por tentar entender o ponto de vista do outro — pelo outro — e não sob o nosso ângulo. Se não for assim, estaremos na verdade, monologando, ou querendo apenas eco para nossas idéias. E isso não é interação, mas pregação de surdos (não me coloco fora desse balaio, diga-se de passagem).

Isso, no fundo, é algo que ocorre, de certa forma, nos sites cada vez mais especializados, reunindo pessoas com o mesmo perfil, que acabam criando um sentido estranho de verdade, ou melhor, .a nossa verdade..

E como há sempre um consenso sobre .a nossa verdade., perdemos a noção do todo. Aqui todo mundo pensa assim. Ok, mas o mundo lá fora pode pensar diferente.

E passamos a considerar que como nós sabemos que o cabo não vem, o mundo sabe, ou o mundo deveria saber e se informar e aceitar da mesma forma, como eu aceitei.

No fundo, deveríamos nos esforçar para algo assim:

Não me incomoda tanto que o cabo não venha, mas posso entender que para um usuário mais leigo ou para um que não esteja embrenhado nos meandros da tecnologia, isso pode realmente ser um problema e levar a um grau de irritação.

Do outro lado:

Não me incomoda tanto que o fato de aceitarem que o cabo não venha, mas posso entender que para um técnico de informática embrenhado nos meandros da tecnologia, isso pode realmente ser um problema menor e não levá-lo a um grau de irritação como eu fiquei.

Ninguém mudou de posição, mas se percebe que dependendo do ponto de vista e da experiência se pode chegar a visões distintas sobre o mesmo problema. E ter até mais argumentos para trazer um ou outro lado mais para uma posição moderada.

O mesmo digo das duas empresas, que deveriam ser menos intolerantes. A HP já tem essa prática faz tempo. É óbvio que o problema tem gerado ruído. Pesquise no Google por .cabo usb Hp problema.. A empresa mandava o cabo e resolveu não mandar mais. O usuário fiel da empresa merecia uma explicação, bem como, os detalhes do novo cabo, que apuramos precisa ser específico e de um tamanho ideal.

Mais: a empresa mudou o padrão dos cabos. Como o usuário muda de quatro em quatro anos de impressora, a geração antiga está se deparando agora com as novas impressoras USB. A HP é, assim, surda para o que o consumidor tem dito faz tempo.

Será que não existe no mundo nenhum cabo confiável que elas possa enviar? E, se não manda, não merecemos uma carta com explicação da mudança de política? Veja que a empresa está fechada para aprender com seus consumidores. É a anti-web 2.0.

Eles sabem do problema, tanto que os atendentes recebem as reclamações, mas não se mexem. Os profissionais do help-desk ainda não são os conselheiros da empresa, mas serão no futuro.

O caso da Submarino é tão grave quanto.

A Submarino induz ao erro. Importou a idéia da colaboração dos leitores da Amazon, como algo moderno, mas quando alguém crítica, resiste ao máximo em publicar. Mandam uma carta sem explicação detalhada do motivo pela qual não vai publicar o problema.

Ou seja, não querem criar um debate em torno do produto, informar ao máximo o leitor, ser mais do que uma loja, mas um espaço de conhecimento sobre cada item, no qual o usuário pode confiar em estar fazendo um bom negócio. Não, a colaboração é algo de fachada não para ser moderno, mas para parecer moderno.

A atitude é perversa, pois ao entrar no site da empresa e ver os comentários aos produtos, o comprador não sabe que o usuário que teve problemas com o dito cujo está tendo dificuldades para publicar o problema naquele ambiente.

É meia Web 2.0. Ou melhor, é Web 2.0 se interessar a venda. Se não interessar, não é Web 2.0.

É a Web 2.0 fake.

Esses traços de intolerância, autoritarismo, falta de diálogo das empresas e também dos consumidores fazem parte do grande desafio que temos agora, no qual o outro estará cada vez mais presente na nossa vida.

Precisamos dele para sobreviver na tsunami da informação. Temos que reaprender a conversar e dialogar se quisermos viver em um planeta melhor. Foi um pouco o que aprendi nesse longo debate sobre um cabo de R$ 7.00. Sinceramente, não esperava que um cabinho fosse valer tanto!


Wiki: ser ou não ser?

outubro 31, 2008

11.05.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

O meio colaborativo produz não apenas resultados eficazes e rápidos, mas contorna problemas e reduz custo, gerando uma nova dinâmica social. E como podemos melhorar isso?

O Wikipedia não vem para criar problemas, mas para resolver um específico: o ser humano precisa de uma enciclopédia online gratuita para consultas rápidas. Mais ainda: uma que fale várias línguas e que seja dinâmica ao ponto de atualizar termos recentes das áreas novas e mutantes.

Abre-se mão, em parte, da consolidação pela velocidade. Mais vale uma informação na mão (acessível) que duas se consolidando (não acessível). É a resposta encontrada pela sociedade do aqui-agora-embrulha-pra-ontem.

Na verdade, o modelo Wiki e os outros ambientes colaborativos, nascem e se consolidam para resolver os problemas que os modelos não-colaborativos não têm conseguido. Se analisarmos cada termo do Wikipedia, por exemplo, como se fossem problemas vivos a serem resolvidos e atualizados de forma dinâmica, podemos imaginar o seguinte ciclo:

Termo –> Avaliação –> Ajuste –> Novo termo ajustado

Atualmente, quanto mais rápido e eficaz (do ponto de vista do usuário) for esse processo, mais relevância terá. Em uma enciclopédia tradicional, por exemplo, esse processo é infinitamente mais demorado do que uma gratuita, colaborativa e aberta.

Hoje, se questiona até se os métodos adotados da Enciclopédia tradicional garantiriam a eficácia nos resultados, já que o método de evolução é quase estático, não evoluindo na sua dinâmica, enquanto o outro se aperfeiçoa rapidamente.

Mais detalhes sobre a polêmica em: http://www.nature.com/news/2005/051212/full/438900a.html

Na enciclopédia clássica, os custos são altos, os critérios rígidos, impondo ao ciclo um fator (x) de tempo maior:

Termo + Avaliação + Ajuste + Termo ajustado = Tempo (x)

Na enciclopédia aberta, os custos são ínfimos, os critérios flexível, impondo ao ciclo um fator (x) de tempo maior:

Termo + Avaliação + Ajuste + Termo ajustado = Tempo (x)

O desafio teórico-prático passa a ser: não adianta ser rápido, mas ineficaz; nem eficaz, sem velocidade.

A pergunta que não quer calar na sociedade é: como aproveitar essa nova dinâmica em outros segmentos da sociedade para ampliar a eficácia em processos e projetos?

Imaginemos, então, agora a mesma situação dentro de uma instituição em um processo continuado, no qual o problema é uma ação, desde a venda de celulares até ministrar um curso a distância:

Ação –> Avaliação –> Ajuste –> Nova ação ajustada

Se uma instituição adota modelos colaborativos para acelerar e aperfeiçoar os ciclos processuais, ganhará velocidade diminuindo o fator tempo:

Ação + Avaliação + Ajuste + Ação Ajustada = Tempo (y)

Assim, o Calcanhar-de-Aquiles é: garantir que as avaliações indiquem os ajustes necessários nas novas ações ajustadas para que estas sejam mais eficazes no menos tempo possível.

Eis a missão dos profissionais da informação, comunicação e de rede do mundo moderno. Nessa perspectiva, temos um novo palco de trabalho: gerir ambientes colaborativos, que passam pelas seguintes atribuições, abaixo.

A ação humana: (profissional)
- incentivo à colaboração;
- escolha ou desenvolvimento das ferramentas, a customização e a integração entre elas;
- aprimoramento dos métodos e ferramentas;
- acionar as ferramentas de eficácia manuais;

Um dos pontos centrais do processo colaborativo é discernir o usuário eficaz do não eficaz e suas respectivas ações, que chamam do karma de cada um.

A ação não-humana: (software)
- facilitar a colaboração;
- medição de resultados;
- acionar as ferramentas de eficácia automáticas.

Assim, pergunto: por quê Wikipedia?

Porque é um dos sistemas mais avançados de construir conhecimento já inventado, transformando-se hoje em um balão de ensaio, uma ótima escola para poder analisar o que nos reserva o futuro nas empresas e fora delas.


Está na Hora de Descentralizar o ORKUT!

outubro 31, 2008

04.05.07
[ Por Carlos Nepomuceno ]

 

Veja se a minha lógica está certa: É fato que as redes eletrônicas estarão cada vez mais presente na sociedade. E que já são e passarão a ser cada vez mais o canal principal para gerar conhecimento e inovação. Diante disso, as instituições e Países que quiserem crescer no futuro precisarão ter uma estratégia para bem utilizar as redes com um dos fatores estratégicos para crescer.

Até aí concordamos? Pois bem, vamos seguir.

Há diversas formas de utilizar a rede, mas a prática tem demonstrado, através de projetos colaborativos, como o Wikipedia, Linux e similares, que existe um grande potencial adormecido nesses modelos colaborativos, que geram conhecimento e inovação.

Assim, uma estratégia a longo prazo passa pelo uso cada vez maior desses ambientes para viabilizar projetos interativos inteligentes.

O Brasil tem vivido intensamente essa experiência, sem qualquer apoio oficial ou indução corporativa. O brasileiro adotou o Orkut como o seu novo ambiente on-line.

Lá, milhões de brasileiros criaram a sua identidade virtual.

Somos, aliás, o País com mais usuários da ferramenta de colaboração do Google (http://www.orkut.com/MembersAll.aspx) com 53%, seguido dos Estados Unidos com 18%.

Esse fato demonstra uma facilidade grande do brasileiro para a comunicação em rede, seguido, porém, da nossa característica exibicionista e pouco participativa.

Temos facilidade para o entretenimento, mas ainda não saltamos para a fase da participação e do conhecimento.

A pergunta que fica é: como o País pode aproveitar essa facilidade do brasileiro para navegar em ambientes colaborativos para projetos de conhecimento e inovação, de tal forma a dar saltos educacionais tão necessários para o mesmo?

As respostas, a nosso ver, passam por três fatores:

- ferramentas similares ao Orkut, mas livres e gratuitas, que não estejam centralizadas em um portal, mas espalhadas e que, ao mesmo tempo permitam a troca de informações entre as diversas bases colaborativas;

- capacitação de novos profissionais, capazes de coordenar projetos nessa linha;

- metodologias que sirvam de guia para esses profissionais.

Dentro desse cenário, criamos o Instituto de Inteligência Coletiva (ICO), (http://www.ico.org.br) , que objetiva apresentar para o País respostas para essas três demandas.

De lá para cá, lançamos o ICOX – ferramenta livre e gratuita (http://www.icox.org.br), que já está na versão 1.2, com mais de 1000 mil instituições, entre elas a Infoglobo, com o Globonlinners (http://www.globonlinners.com.br/), site de relacionamento dos usuários do Globo on-line.

Lembrete importante: o Icox pode ser usado por portadores de deficiência visual.

Preparamos um curso à distância gratuito com apoio de algumas instituições para formar gerentes de comunidades. Lançamos um livro, como apoio da editora Campus/Elsevier, “O Conhecimento em Rede“, que apresenta o novo cenário e uma metodologia para projetos colaborativos.

O Brasil tem uma janela de oportunidade para dar um grande salto, em função da característica comunicativa da sua população, temos que saber jogar isso a nosso favor. E convocamos você para ajudar nessa direção.

Links relevantes para conhecer mais sobre os projetos:

Do ICO:
http://www.ico.org.br

Do ICOX:
http://www.icox.org.br (demo do programa)

Quem já apóia o projeto ICOX:
http://www.icox.org.br/download/apoio.php

O que é o ICO:
http://www.ico.org.br/oque_e.htm

Artigos nossos e selecionados sobre o fenômeno Web 2.0 e projetos similares ao ICOX:
http://www.ico.org.br/artigos.htm

Download do programa:
http://www.icox.org.br/download/estatistica.php

Perfil de quem já testa o programa:
http://www.icox.org.br/download/lista_download.php


Carlos Nepomuceno é jornalista, pesquisador, coordenador do Instituto de Inteligência Coletiva – ICO e coordenador da Pontonet – primeira empresa de consultoria em Internet do País. Cursou a graduação na PUC-RJ, o mestrado em Ciência da Informação na Escola de Comunicação da UFRJ/IBICT/CNPq e fez especialização em Informação no Ciberespaço, na Internet Society, em Honolulu, Havaí. Atualmente é consultor de tecnologia para o Sebrae, Petrobras e IBAM, com projetos em Implantação de Tecnologia e Comunidades Virtuais, e professor do curso de Inteligência Coletiva do MBA de Gestão de Conhecimento do CRIE/UFRJ/Coppe.


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